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quinta-feira, 22 de abril de 2010

Para que ninguém a quisesse




Porque os homens olhavam demais para a sua mulher, mandou que descesse a bainha dos
vestidos e parasse de se pintar. Apesar disso, sua beleza chamava a atenção, e ele foi obrigado a
exigir que eliminasse os decotes, jogasse fora os sapatos de saltos altos. Dos armários tirou as roupas
de seda, da gaveta tirou todas as jóias. E vendo que, ainda assim, um ou outro olhar viril se acendia à
passagem dela, pegou a tesoura e tosquiou‐lhe os longos cabelos.
Agora podia viver descansado. Ninguém a olhava duas vezes, homem nenhum se interessava por
ela. Esquiva como um gato, não atravessava praças. E evitava sair.
Tão esquiva se fez que ele foi deixando de se ocupar dela, permitindo que fluísse em silêncio
pelos cômodos, mimetizada com os móveis e as sombras.
Uma fina saudade, porém começou a alinhar‐se em seus dias. Não saudades da mulher. Mas do
desejo inflamado que tivera por ela.
Então lhe trouxe um batom. No outro dia um corte de seda. Á noite tirou do bolso uma rosa de
cetim para enfeitar‐lhe o que restava dos cabelos. Mas ela tinha desaprendido a gostar dessas coisas,
nem pensava mais em lhe agradar. Largou o tecido numa gaveta, esqueceu o batom. E continuou
andando pela casa de vestido de chita, enquanto a rosa desbotava na cômoda.




Um comentário:

  1. Muiiiiiiiiiiiiiiiiiito bom msm...
    somos mais que cortes de pano,somos sentimentos!

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